Feminicídio, “macho alfa” e colapso narcísico: uma análise psicanalítica da violência contra a mulher

“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.

Eu acredito que a machosfera dos séculos XX, XIX ou até antes não tinha essa síntese de autoria do tenente-coronel Geraldo Neto, preso no último dia 18 acusado de matar sua companheira, a policial militar Gisele Alves.

O termo é comum na Etologia, mas aplicado a contextos específicos de comportamento animal. Mesmo nesses estudos, a ideia simplificada de “macho alfa” não corresponde ao uso popular, e não existe um modelo equivalente universal como “fêmea beta”, já que entre espécies sociais podem existir fêmeas dominantes ou estruturas hierárquicas diferentes.

Na mensagem trágica escrita pelo oficial, o significado é relacional e subordinação, ou seja, inferioridade e obediência. Na psicanálise, o tema é tratado como fantasia hierárquica masculina, típico de personalidade narcisística. Se houver alguma dúvida, é só ler outra mensagem recheada de autoelogios como “bonito”, “gostoso” e “provedor”.

O Ego de parcela dos homens está se tornando um risco de morte para mulheres. Para compreender a estrutura psíquica presente em muitos casos de feminicídio, a formulação lacaniana do ego parece mais elucidativa do que a freudiana.Para Lacan, o ego é uma formação imaginária, resultante da identificação do sujeito com uma imagem de si mesmo. A identificação é tanta que o sujeito consegue negar suas ações mesmo diante de fatos incontestáveis. Na verdade, como ilusão o ego é frágil e tenderia a se desintegrar, significando na verdade o retorno à sua natural falta de unidade.

Por isso, quando  essa imagem é ameaçada, pode surgir angústia narcísica e agressividade, o que torna a teoria lacaniana particularmente relevante para a compreensão de atos violentos ligados à perda de controle e à ruptura da relação com o outro.    

Casos de feminicídio seguidos de suicídio do agressor podem ser analisados em uma perspectiva psicanalítica como situações extremas de colapso narcísico, nas quais a ruptura do vínculo com a parceira é vivida não apenas como perda do objeto amoroso, mas como ameaça à própria consistência do eu. Nesses casos, o ato suicida que se segue ao homicídio pode ser compreendido não apenas como expressão de culpa ou desespero, mas também como tentativa de escapar a uma experiência de punição vivida como insuportável.

Porém, entender somente não leva à solução. A menos que esses homens se dispusessem a se submeter a uma análise – o que implicaria abrir mão da posição imaginária de superioridade que sustenta essa fantasia de “macho alfa” - continuaremos a ver os mesmos casos se repetirem. Não basta esperar que as vítimas denunciem seus agressores. A sociedade precisa estender a mão às vítimas de relações abusivas que começam com humilhações, restrições físicas ou financeiras e, depois, evoluem para agressões e assassinatos.

Estar atento para buscar essas vítimas antes que o pior aconteça é fundamental. O feminicídio não é somente o luto; órfãos ficam sem a mãe e, muitas vezes, também sem o pai que foi preso ou se matou.  Milhares vão crescer marcados pela tragédia do feminicídio. A pergunta é também se estamos preparados para essas crianças.

Não se trata mais somente de mais um crime; é. uma chaga social e também um grave problema de saúde mental coletiva.  O atual aparelhamento estatal e social parece insuficiente para deter essa onda de mortes. Está na hora de pensarmos em dar outro passo além.

A Psicanálise pode ajudar ambos os lados. Por um lado, poderia fazer com que o agressor entenda suas motivações e enganos na construção de sua personalidade.  Embora seja quase impensável que ele possa buscar ajuda por si mesmo, tal pode ocorrer visando manter o objeto amado, ou seja, a mulher. Ainda que  a busca por ajuda ocorra por motivos equivocados, ela pode abrir espaço para transformação psíquica e mudança de conduta.

Pelo lado da vítima, acolher e preservar sua integridade psíquica e emocional e estimular a buscar ajuda, se for o caso. E dependendo da situação, o terapeuta não pode se omitir. Assumir riscos com vidas em risco é uma necessidade.

Basta de violência contra a Mulher!!!  

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